Olhares sobre a Covid-19, Marco Zero: Estônia, por Aline Belfort

Conteúdo apoiado pelo Itaú Cultural


O último relato da série Olhares sobre a Covid-19, Marco Zero vem da Estônia. Ex-república soviética, a Estônia participa de rankings curiosos: é o país menos religioso do mundo, é conhecido como uma das sociedades digitais mais avançadas e, ao mesmo tempo, tem a cidade medieval mais bem preservada do Norte da Europa: Talín, capital da Estônia. É, principalmente, um dos países com menor número de casos confirmados e mortes (1.974 e 69, respectivamente).

Seu governo declarou estado de emergência no dia 12 de março, quando foram anunciados 27 casos de covid-19 no país. “A prioridade absoluta do governo é proteger a saúde das pessoas”, destacou o primeiro-ministro Jüri Ratas, em seu pronunciamento. “Entendo o inconveniente que a situação causará a todos nós, mas não é apenas a saúde das pessoas, mas a proteção de vidas que está em risco”, enfatizou.

Aline Belfort mora em Talín desde o fim de janeiro. Mudou-se para lá para fazer mestrado em cinema, após morar na Rússia e passar por outros países do leste europeu. Ela estava na faculdade quando recebeu, por e-mail, as novas normas que entrariam em vigor a partir do dia seguinte, sábado, 14 de março. A faculdade iria fechar, as escolas, os cinemas, os shoppings, as academias – tudo o que fosse possível seria fechado.

“Eu não conseguia acreditar que da noite para o dia tudo iria mudar desse jeito”, lembra. “Eu e um grupo de estrangeiros do mestrado decidimos fazer compras desesperadas, como chamamos em inglês desperate shop. Quando chegamos ao supermercado, entendemos que talvez aquilo não fosse brincadeira: prateleiras vazias”, recorda. “Voltei para casa com sacolas enormes de compras para mais de uma semana e pensei: ‘e agora?’.”

O mais difícil, ela conta, foi ter de lidar com uma ameaça invisível. Parecia não existir cautela o suficiente. Começam a surgir dúvidas e medos – quando será que isso vai passar? Será que passa? O mundo voltará a ser como antes?

“Eu me senti presa num submarino que eu não sabia se ia levantar. A cabeça começa a trabalhar com um potencial maior para questionar a própria realidade. A gente perde o referencial do próximo”, observa.

No período de isolamento, Aline tentou encontrar algo novo no que achava que conhecia de ponta-cabeça. “Conheço todos os meus gestos, conheço essa casa, quis ver meus braços e mãos de uma maneira diferente”, diz. “A primavera ajudou, pois começou a entrar luz na casa e essa luz me ajudava a ver a casa de um jeito diferente”, conta.

“As janelas foram as grandes heroínas deste período”, explica. “Eu passava horas na janela da cozinha, que dá para uma área comum do prédio onde algumas pessoas saíam para fumar, outras passavam rapidamente da rua para dentro de casa para fugir do perigo invisível – no resto: pássaros que pareciam ter virado os protagonistas do movimento presente e alguns brinquedos do parquinho, sem as crianças brincando, que eram uma lembrança de que estávamos trancados dentro de casa.”

As imagens publicadas aqui fazem parte do filme Teletransporte para Olívia. Aline fez esse vídeo em abril, quando ainda não havia previsão de abertura ou flexibilização das restrições e parecia que a única maneira de ter um encontro físico com alguém que se encontrava do outro lado do oceano seria através do teletransporte.

“As grandes invenções da humanidade certamente surgiram da frustração. É muito frustrante não poder viver tudo o que tínhamos sonhado. Até agora não sabemos quando vamos conseguir nos encontrar. De repente o mundo ficou enorme. As distâncias voltaram a ser medievais. Os encontros e os anseios como numa guerra – trocamos cartas e esperamos por um futuro melhor”, diz Aline.

Publicado no dia 10/07/2020, no site do Itaú Cultural:
https://www.itaucultural.org.br/olhares-sobre-covid-marco-zero-relato-5

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