Olhares sobre a Covid-19, Marco Zero: Trancoso, por Alejandra Orosco

Conteúdo apoiado pelo Itaú Cultural

A fotógrafa peruana Alejandra Orosco chegou ao Brasil no dia 10 de fevereiro com a ideia de conhecer o país. Depois de Trancoso, na Bahia, viajaria para São Paulo e Rio de Janeiro. Veio a pandemia. As duas cidades se tornaram inviáveis.

Duas semanas depois, no dia 26 de fevereiro, foi confirmado o primeiro caso de covid-19 no Brasil. O paciente era um homem de 61 anos que viajara à Itália e dera entrada no Hospital Albert Einstein, na capital paulista, no dia anterior.

Ainda no início daquele mês, brasileiros que viviam em Wuhan, na China, marco zero e epicentro da pandemia, foram repatriados e o Ministério da Saúde iniciava o monitoramento dos casos, alertando para a entrada no Brasil de pessoas vindas de países onde a contaminação já havia sido confirmada.

Além da China, a primeira lista incluía Japão, Singapura, Coreia do Sul, Coreia do Norte, Tailândia, Vietnã e Camboja. Menos de um mês depois, entravam no rol Alemanha, Austrália, Emirados Árabes, Filipinas, França, Irã, Itália e Malásia.

“Aqui em Trancoso as pessoas no hotel onde eu estava começaram a falar sobre os estrangeiros que não podiam mais vir, e cada dia víamos menos pessoas circulando na cidade”, lembra Alejandra. “Planejávamos a viagem ao Rio, mas de repente não podíamos comprar as passagens. Foi quando nos disseram que deveríamos ficar aqui, pois era mais seguro.”

Dentro de um filme

“Para nós, a notícia mais importante foi quando o Peru fechou suas fronteiras. Fiquei calma nos primeiros dias, mas depois comecei a ficar muito assustada. Eu tinha medo de não poder ver minha família novamente a tempo. Ainda tenho esse medo”, admite.
Em uma língua desconhecida, sem entender muito bem as mudanças ou o ritmo das coisas, Alejandra permanece em Trancoso. Uma estranha no paraíso. “Trancoso tornou-se uma pequena caverna na qual me escondo até que tudo passe. Um paraíso para o fim do mundo”, desabafa a fotógrafa peruana. “Parece que tudo ainda está normal aqui, e às vezes me sinto um pouco desconectada do que está acontecendo no mundo. Como se fosse um filme na Netflix.”

“Minha família está longe, meus amigos, os espaços habituais, tudo está em um filme do qual me sinto espectadora, não participo. Eles estão lá e eu estou aqui, no lugar a que cheguei quase por acaso e que acabou se tornando um refúgio para o fim do mundo”, diz.

Como em um roteiro de fim do mundo, com reviravoltas surpreendentes em todas as cenas, para ela o final da história é incerto e imprevisível. “Nada parece verdadeiro e, no entanto, torna-se uma história que questiona a todos a ponto de repensar os caminhos que seguimos e se estávamos realmente caminhando para onde queríamos ir. Seja em um paraíso ou entre quatro paredes no meio de uma cidade grande, as perguntas começam a se parecer.”

Enquanto a covid-19 se alastra pelo Brasil e os números de infecções e mortes crescem de forma exponencial e assustadora, Alejandra perdeu trabalhos, o tempo no país está terminando e ela mesma já não sabe qual será seu futuro.

O que acontecerá? “O medo não falta, mas somos todos iguais, e talvez isso nos permita ver a imagem diferente pela primeira vez. E, quem sabe, talvez o final do filme seja reconfortante, e não o horror”, conclui.

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Publicado originalmente no site do Itaú Cultural, no dia 29 de maio de 2020:
https://www.itaucultural.org.br/secoes/fotografia/olhares-sobre-covid-marco-zero-portugal

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