Olhares sobre a Covid-19, Marco Zero: Madri, por Daniela Olave

Conteúdo apoiado pelo Itaú Cultural

O primeiro contágio do novo coronavírus na Espanha foi confirmado em 31 de janeiro, mas somente em março, quando houve uma multiplicação exponencial de doentes, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou estado de emergência e restrições em todo o país.
“É uma sensação estranha ver como de repente tudo mudou. Não há mais caos, barulho ou multidões, e temos poucos motivos para sair às ruas”, diz a fotógrafa colombiana Daniela Olave, que vive há três anos em Madri. A cidade que nunca dorme está silenciosa após se tornar um dos lugares com o maior número de vítimas da covid-19. “É estranho ver a cidade assim. De repente, é como se as ficções que eu estava procurando agora fossem uma realidade por aí, cenas como as de Edward Hopper, mas muito mais fortes e apocalípticas”, diz Daniela, que começou a aproveitar as poucas saídas para fotografar as pessoas que encontrava em suas viagens, como chama, a caminho do supermercado.

“Passei a capturar essa solidão porque era algo que eu sentia, que carregava por dentro. Uma solidão que, em uma espécie de catarse, vejo refletida nas pessoas que tiveram suas rotinas completamente alteradas depois da covid-19”, desabafa.
Nos registros recentes de Daniela, uma senhora completamente coberta atravessa a rua com seu carrinho, sem ligar para o semáforo. Não há mais pessoas ou veículos para impedi-la; um homem espera pelo transporte público sem muita precaução sanitária, apenas verificando suas mensagens enquanto aguarda; uma mulher caminha no meio de uma das ruas mais movimentadas de Madri no sentido oposto aos carros; a própria sombra, na fila de espera para entrar no supermercado.

“Acho um pouco irônico encontrar essas situações nas ruas de Madri, porque não é algo muito diferente do que fotografo há vários anos: pessoas solitárias no meio da luz da noite”, conta. “Mas agora tudo é muito diferente, porque não são mais cenas que procuro especificamente no meio do caos. Desta vez, a solidão que enfrento é uma imposta e sentida nas ruas de todo o mundo.”

Um passado próximo (e distante)

O círculo íntimo de Daniela, formado principalmente por artistas, vem buscando se adaptar à situação e continuar suas atividades como criadores. Não houve grandes mudanças.

Ela pensa nos mais jovens, nas crianças – que não entendem a situação e que certamente, em algum momento, ficarão entediadas e vão querer sair para brincar. E nos mais idosos, parte importante da população madrilenha, que é comumente encontrada a qualquer hora do dia em bares e restaurantes, tomando um copo de vinho ou cerveja. “Madri era muito ativa, muito cultural, havia sempre algo para fazer”, lembra, como se fosse um passado distante. Para Daniela, a situação é mais complicada e sofrida para aqueles que não conseguem lidar com a solidão ou procuram distração nesses tipos de reunião social.

Pergunto como está em Bogotá, na Colômbia, e se ela se preocupa com a família e os conhecidos da terra natal. “No momento, minha família está bem. Mas em Bogotá sinto que a situação é mais complicada. Infelizmente há quem acredite que esta situação não é grave e prefira continuar sua vida normal, o que ampliará ainda mais a quarentena. Tenho um pouco de medo de as pessoas entrarem em pânico e a vida se tornar violenta”, diz. “Existe uma realidade que não entendemos, e não sabemos até quando vamos permanecer nesta situação, mas considero que simbolicamente cabe a nós torná-la um pouco mais gentil, cabe a nós decidir se devemos continuar nesse processo em meio à luz ou às sombras.”

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Publicado originalmente no site do Itaú Cultural, no dia 22 de maio de 2020:

https://www.itaucultural.org.br/olhares-sobre-covid-marco-zero-relato

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