Fernanda Grabauska e uma foto de Alcides Ghiggia

Tem tanta gente no mundo que a gente não conhece.

Quando eu comecei a virar gente, o Massa Bruta era timaço e jogava com aquela camiseta de diamantes que hoje não se encontra mais. Eu ainda hoje sonho com aqueles botões da coleção do pai, com aquele bem grandão que era o atacante. Eu nunca entendi muito bem o futebol de botão, mas eu jogava. E dizia que meu time era o Bragantino do Parreira, o Bragantino da superação.

De tempos em tempos, uma história de superação faz clamar que nada disso é um jogo, ou que é um jogo sim!, mas também é mais do que isso. Nesses momentos, meu pai sempre falou dos uruguaios. Que tinha que ser mais uruguaio, que quanto mais uruguaio no mundo melhor. Tinha esse Alcides Ghiggia, que era um homem magro e empedernido de bigode escovinha (isso ele me contava quando eu não sabia o que era empedernido, sequer sabia o que era bigode) cujo gol calou o Brasil, logo esse país tão fiasquento. Que os empedernidos uruguaios, serenos e legitimados por uma Copa e um ouro olímpico, jogaram com um propósito tão constante quanto o amor que a gente tem um pelo outro. E tiraram uma copa que todo mundo dizia ser do Brasil. Que era jogada no Brasil. Cuja partida derradeira foi jogada no Maracanã! A gente conta a história da nossa dor e da nossa tristeza, mas esquece que o Barbosa era um frangueiro, ele dizia, esquece que do outro lado tinha um time bom quanto o nosso, e mais competitivo. Constância!, ele bradava, porque meu pai era homem de bradar, quanto mais uruguaio no mundo, melhor!

Quando eu me chateio, sempre tento pensar naquele Bragantino dos diamantes, que não sabia que aqueles bons dias seriam os últimos. E no Ghiggia, que ensinou constância. Quando ele voltou ao Maracanã, muitos anos depois, foi para imprimir as solas dos pés que ensinaram humildade à turma do já-tá-ganho. Eu queria conhecer Alcides Ghiggia. Mas é tanta gente no mundo que a gente não conhece…

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Ghiggia

El jugador de la selección de Uruguay, Alcides Ghiggia, centro, anota un gol contra Brasil en la final del Mundial el 16 de julio de 1950 en Río de Janeiro, en el partido conocido como el Maracanazo. (AP Photo, File)

Pra turma do já-tá-ganho, Fernanda Grabauska

Fernanda Grabauska é jornalista, editora na TAG e volante às terças-feira.

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