A superfície da imagem: Vilém Flusser, uma entrevista de 1988

Em 1988, Vilém Flusser foi entrevistado pelo curador e professor húngaro Miklós Peternák.

Este último, também diretor do Center for Culture and Communication – C3, instituto que promove a arte, a comunicação e a ciência através de programas culturais e educacionais –, posteriormente reuniu palestras e entrevistas concedidas por Flusser, no filme “We shall survive in the memory of others “.

Na entrevista de 1988, realizada cinco anos após a publicação de Filosofia da Caixa Preta, a primeira pergunta feita por Peternák: possível definir uma imagem?

Segue a tradução [livre] da resposta dada por Flusser.

Miklós Peternák: É possível definir uma imagem?

Vilém Flusser: “Uma imagem é uma superfície significante. E quando digo significante, quero dizer que ela é uma superfície que contém símbolos organizados em um código, e que, portanto, permitem que o receptor decida por eles.

Quando digo superfície, quero dizer que a informação que está contida em uma imagem está espalhada [pela superfície]. Ela é sincrônica e eu, que decifro, diacronizo essa sincronicidade.

O movimento do olho que decifra a superfície da imagem pode ser chamado de varredura [scanning]. O olho percorre a superfície da imagem tentando decifra-la. Segue caminhos, alguns deles determinados por aquele que produz a imagem. Mas o olho tem certa autonomia e pode estabelecer seu próprio itinerário.

É por essa razão que a mensagem contida em uma imagem é essencialmente conotativa. Cada receptor interpreta a imagem à sua maneira. Isso, é claro, tem a vantagem de tornar a mensagem plena de significado, mas a desvantagem de que ela nunca seja clara e distinta. Ela é sempre, de alguma forma, confusa.

O caminho que o olho percorre na superfície da imagem é um caminho falso. O olho pode retornar a qualquer elemento da imagem a qualquer momento. Assim, a diacronização da sincronicidade da imagem é circular.

Não há explicação linear de uma imagem. Ela [a imagem] não pode ser explicada por uma relação de causa e efeito. Não é possível decifrar uma imagem de forma linear; por exemplo: você não pode dizer que o galo canta porque o sol nasce ou que o sol nasce porque o galo canta. Ambas as explicações são boas, o que é típico do pensamento mítico. A imagem é um meio mítico. E é assim por sua própria estrutura.

Existem dois tipos de imagens, se você observar a sua estrutura. Uma é a superfície sólida: uma imagem, como qualquer outro objeto, é composta por partículas. Mas esta é apenas uma explicação teórica da imagem. De fato, as imagens tradicionais são consideradas superfícies sólidas, visões bidimensionais do mundo quadridimensional em que vivemos. Assim, a definição de imaginação* pode ser a capacidade de abstrair duas dimensões do mundo existencial e ter duas dimensões representadas.

Uma imagem é uma abstração. E agora temos novos tipos de imagens. A imagem fotográfica é a primeira deste novo tipo. Esta, por sinal, não é mais uma superfície sólida; é, de fato, um mosaico de pequenos elementos.

No caso da fotografia de moléculas, é um mosaico de moléculas compostas de prata. Portanto, você não pode mais dizer que a superfície é uma abstração; você tem que dizer, sim, que é uma concreção composta de elementos pontuais.

Creio que este novo tipo de imaginação se desenvolveu da seguinte maneira –
E segue aqui a genealogia da nova imagem. Ela começa com a fotografia, que é um mosaico de moléculas e continua com o filme, que tem a mesma estrutura ontológica. Com o vídeo, temos um salto-mortal – uma mudança de paradigma –, pois não são mais moléculas, mas fótons, elétrons, que a constituem. Saímos do nível químico e entramos na física nuclear. Um tipo completamente diferente de imaginação é então articulado.

Deixe-me colocar isto de uma maneira diferente. Temos dois tipos de imagens: o primeiro tipo de imagem é decorrente da imaginação de primeira ordem e representa objetos. O segundo tipo é uma concreção de estrutura pontual e representa conceitos.

O significado das novas imagens é oposto ao significado das imagens antigas. Ou – se posso colocar dessa maneira – o vetor de significância girou 180 graus. E é por isso que, se olharmos para essas imagens e fizermos perguntas que se referem às imagens antigas, fazemos as perguntas erradas.

Se assistirmos a um programa de televisão, não devemos perguntar: “Que objeto isto representa?” Devemos perguntar, antes, qual a intenção do criador de imagens.

Não é possível analisar a imagem televisiva decifrando o objeto que ela representa. É preciso perguntar a partir de qual ponto de vista esta imagem foi produzida. Esta é uma situação ambígua, pois se você fizer a pergunta errada, na televisão, por exemplo, você se torna uma vítima manipulada pela imagem. Por outro lado, ao fazer a pergunta certa, se você perguntar qual o ponto de vista [qual a intenção] da imagem projetada, você terá um instrumento crítico muito forte.

Um dos meus compromissos é ensinar as pessoas, tanto quanto posso, a fazer as perguntas certas, para não se tornarem vítimas da imagem e sim usá-las como ferramenta de análise crítica”.
*Imaginação p/ Flusser: a capacidade de distanciamento do mundo dos objetos e de recuo para a subjetividade

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Cassiano Viana (@vianacassiano) é editor do site About Light

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