Catarina Lins e um poema para uma foto de Seydou Keïta

quando surgiu entre nós um lírio, do cajado de josé,

(porque jesus escolheu um burro
e não um cavalo
para entrar em jerusalém)

foi quando tudo aquilo começou

e se delinearia ainda através da brisa, da névoa, do mar

fijate –

eram crianças
e brincavam ao redor do mundo
nos túneis, jardins,
nos monumentos
da guerra

e aqueles eram os plátanos
para os quais Plath e Pound
tinham olhado

agora, pensa:

há um número infinito de rios e lagos e mares
e você adquiriu uma balsa

e você gostaria que eu estivesse estado lá, é claro

(que eu também gostaria, é claro)

porque era um lindo dia de chuva com sol nos vitrais

e Youssef perguntava
se ainda amávamos
os pais

Youssef

o rosto enrugado

& alongado

como um El Greco

(ou um jesus

de plástico)

e eu talvez ainda tivesse na boca

o gosto de algo distante

(como queijo, cavalos, maçã)

ingredientes que ninguém sabia ao certo

e ninguém sabia
se ali onde estávamos

era a igreja
ou uma cozinha

(era assim também
quando você morava
aqui?)

não, não era exatamente isso:

não eram só as extremidades, vitrais,

eram também as fotos das extremidades

e meu irmão

que quando pequeno

só comia se olhasse são jerônimo

escrevendo

com os pavões ao redor

da fotografia

e eu nunca olhava pra câmera

não porque não gostasse

das bolas de luz que saíam dali mas

você rezava por mim, é claro

e eu também rezava por ti – é claro

que sempre ainda penso nisso

quando vejo um burrinho

e quando você fosse embora

com a Companhia Instável de Teatro da China

e depois voltasse
a visitar meus pensamentos, à noite, na cama, antes do sono,

seria uma espécie de alívio:

“pop–Pound”, disseram

e eu poderia dizer que foi isso (ou o poire williams depois do jantar)

mas nós dois sabemos que não

embora também pudéssemos dizer que sim, às vezes

(mas poderíamos dizer também
não, sempre não)

mas às vezes

você se pergunta
(porque desconfia)
por que um homem segurando um bebê teria essa luminosidade
“especial”

Seydou Keita

/

um homem segurando um bebê*, de Catarina Lins.

Foto: Seydou Keïta – Bamako Portraits, Untitled
Catarina Lins nasceu em 1990, em Florianópolis. É autora das plaquetes Músculo (megamini, 2015) e Parvo Orifício (Garupa, 2016). Em 2017, publicou “O Teatro do mundo” (7Letras, 2017), finalista do Prêmio Jabuti na categoria poesia. Atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro.

 

*O poema está no livro “Na capital sul-americana do porco light”, que será lançado hoje pela 7Letras.

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