estilhaços, por Leila Danziger, para Letícia Tandeta Tartarotti

Não há pressa em se livrar dos cacos. Depois que as coisas se partem, é recomendável manter o assombro. Com a respiração suspensa, é preciso cuidado, não com os estilhaços em si, mas com as relações que começam a surgir entre esses seres, agora livres de forma e função. Quando algo se rompe é o momento de ouvir a vocação do que se reconfigura. E mesmo se os estilhaços de Letícia “não dão uma palavra”, há conversas nessas imagens, restos de coisas ditas entre a varanda e o sótão, entre o alpendre e o porão.

Não sabemos bem se era um copo ou uma jarra, uma pequena garrafa ou um vaso, se o recipiente continha líquidos no momento da queda, se dispersou odores, nem se tudo aconteceu de fato sobre a mesa ou foi transportado àquela superfície de dissecação delicada. O que sabemos: a existência de um pequeno gancho dourado, um quase arabesco, certamente a forma mais íntegra a percorrer as imagens. Há plenitude no gancho dourado. Há quase plenitude no estilhaço que envolve o braço da artista, convidando-o a uma espécie de duelo. Mas essa talvez seja uma palavra excessiva (inexistem relações de força entre os objetos nas imagens) e é preciso ser justo com as palavras e com as minúcias, nesses dias em que tudo aspira a esmaga-las.

Essas imagens guardam ecos de nomes femininos que saíram de moda (Isaura, Moema, Custódia), querem nos fazer recordar citações perdidas em nosso imenso patrimônio pessoal de coisas lidas e esquecidas. Ao final de um ano em que se queimaram cantos de povos extintos e esvaem-se projetos de futuros verdadeiramente emancipatórios, espreitar ruídos e fricções é uma forma de resistência ao que grita e ao que mente; ao que desconhece a existência do “anfitrião, do hóspede e do crisântemo”; ao que joga fora tanto o vazio, quanto o cheio. Com as imagens de Letícia, nós recolhemos os cacos, ouvimos as esperanças extraviadas do que se partiu, e são tantas as esperanças, tantos os extravios.

estilhaços, Por Leila Danziger

p/ Letícia Tandeta Tartarotti

Veja ensaio Não dão uma palavra, de Letícia Tandeta Tartarotti aqui

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Leila Danziger é artista plástica, poeta, professora do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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