Talita Feuser escreve um poema para uma foto de Raymond Depardon

A luz se dissipa ambígua pelo mundo
enquanto de um lado trevas
do outro o sol diz:
– Arrisquei-me, arrisquei-me a sorrir!

O planeta fornece a si o seu próprio esterco

Nós que fomos sementes
e agora árvores, ou flores, ou filhas, ou frutos, ou galhos secos
outra hora seremos adubo para novas sementes
ao menos enquanto não nascermos plástico e chumbo

Embora assim já vivam muitos

Por aqui, evitamos canudinhos e alimentamos minhocas em uma composteira doméstica
para alívio de consciência e escritura de testamento:

fizemos a nossa parte, Terra
faça a sua também e deixe nascer um girassol

A lua joga carteado com as estrelas no céu
eu acompanho daqui de baixo jogando dados sobre a mesa da cozinha
e lendo o tarô em busca de respostas vãs
enquanto tomo restos de vinho de uma noite explosiva
e penso em supernovas desbravando a imensidão

O vento sul entra firme pela brecha da janela
e
embora meus pelos se ericem como os de um gato miando assustado
e minhas mãos tremulem ao tatear coisas invisíveis
aceito o recado do vento
(sussurros pardos aos meus ouvidos tímidos):

– Já é hora de decidir…
ir ir ir…

Daqui a alguns minutos as trevas por aqui também se dissiparão e
talvez tenha chegado o tempo de se entregar ao vento
ainda que com tremor, incertezas e uma leve embriaguez
(necessária)

Arriscar-se
ainda que com pregadores de plástico e chumbo sustentando as bochechas
ainda que para exercitar os músculos da face

Arriscar-se
ao menos por algumas horas
enquanto os girassóis se levantam e anunciam a generosidade do mundo:

O SOL

Por algumas horas, ao menos
enquanto a luz te escolhe
e o vento te aquece

Arriscar-se!

Arriscar-se

e sorrir!

 

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Noturno, Talita Feuser. Foto: Raymond Depardon

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Talita Feuser (Paranavaí – PR, 1986) é atriz, poeta, dramaturga, advogada. Mora no Rio de Janeiro. Dois livros saindo do forno pela editora Kazuá: A peça Quando Chove (prêmio pavão de dramaturgia) e Cenário Implícito (poesia e prosa poética). Dois filmes saindo do forno: Um oitenta seis avos (roteiro e direção Felipe Leibold), Jovens Polacas (roteiro e direção Alex Levy-Heller).

 

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