João Pina: “O Rio é uma cidade ofuscada por si própria “

Durante dez anos, o fotógrafo português João Pina visitou o Rio de Janeiro com uma missão específica: documentar a violência urbana da cidade em um arco de anos de grande visibilidade, com a realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, registrando o outro lado do espetáculo. “Esse projeto tinha como data de validade o final de 2016, quando os fogos de artifício e as luzes dos grandes eventos se apagassem”, conta. “O que viria depois não era nenhuma surpresa. ”

O livro, que inicialmente se chamaria Gangland, ganhou como título 46750, o número de homicídios registrados na cidade no período de 2007 a 2016.

“O título Gangland surgiu da matéria que foi publicada em 2009, na New Yorker. Mas a minha intenção não era chamar ao livro Gangland, porque me parece um título redutor. O trabalho que eu estava a desenvolver ia muito além das gangues ou da ideia binária do bandido e polícia. Por isso é que o título nunca seria gangland e acabou sendo o número de homicídios segundo o ISP “, explica João

As edições portuguesa, inglesa e francesa chegaram às livrarias entre maio e junho de 2018. A obra ainda não existe no Brasil, por falta de editora.

O livro pode ser comprado no site 46750book.joao-pina.com

João esteve no país em agosto, precisamente para ter uma ideia melhor do momento pelo qual passam a cidade patrulhada pelas tropas do Exército e o Brasil. “Estes tempos sombrios só se combatem com esclarecimento, e não com pancada”, reflete o autor de Condor, livro-tributo à memória das vítimas da Operação Condor – plano militar secreto instituído em 1975 por seis países latino-americanos governados por ditaduras militares, para eliminar a oposição política.

Passado esse tempo de elaboração do livro, qual é a sua percepção do Rio de Janeiro hoje?

A minha percepção do Rio de Janeiro foi evoluindo e ficando mais complexa ao longo dos dez anos em que fui e vim para fotografar na cidade. Cheguei em 2007 com uma ideia de cobrir a violência, que era um assunto gritante. Ao mesmo tempo, eu próprio fui descobrindo a cidade, as pequenas coisas que no dia a dia a tornam infernalmente maravilhosa. Conforme as minhas estadias foram aumentando, fui entendendo como o Rio de Janeiro é realmente uma cidade partida (para citar o Zuenir Ventura), em que, apesar de todas as problemáticas conviverem lado a lado, os mundos realmente não se misturam – ao contrário, por exemplo, de São Paulo, onde essas questões são muito mais separadas pela própria geografia socioeconômica da cidade.

Assim, a minha percepção do Rio de Janeiro hoje é que de fato a cidade é maravilhosa, mas ofuscada por si própria, o que faz com que os problemas se tornem cada vez mais graves. Como é possível que numa cidade morram em dez anos perto de 50 mil pessoas assassinadas e, ao mesmo tempo, em alguns lugares privilegiados dela, que se viva como se uma guerra civil não estivesse a acontecer ali do lado?

Ao mesmo tempo que o Rio é uma cidade incrivelmente bonita, criativa, não consegue se libertar do seu próprio passado. A sua fundação portuguesa está assentada na escravatura e na impunidade imposta pela elite portuguesa. Mesmo depois da independência, ao longo dos anos, essa dominação persiste. Mesmo com a abolição da escravatura já tendo acontecido há bastante tempo, alguns brancos continuam a dominar e a acharem-se muitas vezes superiores aos demais. Não nos damos conta de que o ponto de partida é muito diferente. Tudo depende do lugar de onde você veio, da cidade onde você nasceu, de que escola e hospital você frequentou e de que tipo de vida você leva.

Quais são as suas melhores – e piores – lembranças do Rio?

As minhas melhores lembranças são sempre os momentos em que fui profundamente surpreendido com a humanidade, a resiliência das pessoas. Lembro-me sempre com muito carinho das pessoas com quem cruzei, sendo elas da polícia, do tráfico, da igreja ou simples cidadãos anônimos que me abriram portas, me ajudaram a trabalhar e a chegar mais a fundo nos assuntos que eu queria fotografar, muitas vezes pondo-se elas mesmas em risco, confiando em mim para que eu pudesse fotografar.

As piores memórias são de alguns episódios tremendamente violentos a que assisti, mas sobretudo a frustração de que esses episódios não revoltem os cariocas, especialmente aqueles que vivem nos bairros nobres da cidade, mais afastados da violência extrema e blindados pelo sistema que dá às classes média-alta e alta uma proteção muito maior. Em que muitas vezes apontam o problema como sendo o tráfico e os bandidos, mas contribuindo essas pessoas todos os dias em cada baseado, cada linha de coca – mas que, pela cor da pele, como se vestem ou onde vivem, não são tratadas da mesma forma pelas autoridades nem pela Justiça.

Você voltaria a morar na cidade?

Tecnicamente eu nunca morei no Rio de Janeiro. Passei temporadas, algumas delas bastante longas e até com um quarto alugado de forma permanente. Mas na minha cabeça eu estava no Rio com uma missão específica, que era fotografar esse momento na cidade, e esse projeto tinha como data de validade o final de 2016, quando os fogos de artifício e as luzes dos grandes eventos se apagassem. Sempre precisei desse ir e vir no meu trabalho, para conseguir ter alguma distância emocional a fim de entender o que vivo e o que fotografo.

Quando você olha para os últimos acontecimentos no Rio e no Brasil, dá vontade de estar aqui e documentar? Como seria o livro pós-2018?

Sinceramente não tenho vontade de estar aí para documentar. Para este livro eu me propus a terminar o meu trabalho com o final das Olimpíadas. O que viria depois disso não é nenhuma surpresa, pois já era sabido que a cidade, o estado e o país estavam falidos, entre outras coisas, graças a investimentos que apenas serviram para o curto prazo.

Nada do que está acontecendo no Rio é novo; é apenas uma evolução natural de uma situação que cada dia é mais crítica. Eu vejo o atual momento apenas como uma acentuação dos problemas. Não adianta achar que, pelo fato de o Exército brasileiro patrulhar as ruas do Rio, serão resolvidos problemas como falta de serviços básicos (que afeta milhões de cariocas), como o direito à moradia, à saúde e à educação, a igualdade de tratamento perante as autoridades e a lei. Enquanto isso não for construído, não acredito que existam quaisquer soluções que não sejam apenas eleitoreiras. Usando uma expressão bem brasileira, serão soluções que só vão servir para enxugar gelo.

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Cassiano Viana (@vianacassiano) é editor do site About Light.

Veja fotos do livro 46750, de João Pina, aqui

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