Miguel Chikaoka: a experiência da luz e da escuridão através da fotografia

Fotógrafo brasileiro a quem os grandes fotógrafos brasileiros invariavelmente chamam de mestre, Miguel Chikaoka nasceu em 1950, na colônia japonesa de Registro, interior de São Paulo. A família chegou ao Brasil com as primeiras levas de imigrantes japoneses, no século passado. Em Registro, todos os dias caminhava seis quilômetros para ir e voltar da escola primária que frequentava, na zona rural.

“Não lembro muita coisa da escola. Lembro do caminho, que, naquele momento, era meu mundo”, ele me conta, sentado em um banco de pedra e azulejos no jardim de entrada do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro.

“Com a idade, descobri que minha busca nunca foi por uma atividade profissional, a engenharia elétrica, por exemplo”, diz Miguel, que se graduou em Campinas e frequentou a École Supérieure de Mécanique et Électricité, em Nancy, na França.

“Com a fotografia, que comecei a praticar ainda na França, encontrei uma forma de me desconectar do plano mais racional e me conectar com o campo do sensível. Foi a forma que encontrei de falar comigo e com o mundo”, diz.

Miguel conta que, quando voltou da França, onde passou três anos, percebeu que, naquele momento, não fazia sentido voltar para São Paulo.

“Eu queria conhecer o Brasil porque me dei conta que a visão sobre o meu país era muito limitada. Era o momento de seguir para outra direção. Então soprou um vento que me levou para o Norte, para Belém. Cheguei lá em 1980.

“Eu estimava que passaria três anos na cidade. Tempo ideal para experimentar, vivenciar minimamente o que caracteriza um lugar. No terceiro ano já tinha um projeto itinerante na minha cabeça, passando pelas capitais até o Rio de Janeiro. Mas aí fiquei grávido do meu primeiro filho e resolvi ficar”.

Miguel está no Rio para ministrar uma oficina sobre fotografia. Ele diz que hoje fotografa bem menos. “Continuo trabalhando na produção de imagens, mas fotografar para mim, hoje, é bem mais exercício poético e filosófico, como um hai kai. Tudo que está no meu entorno, eu olho como algo que faz parte de mim e eu faço parte dela”, diz, acrescentando que sua fotografia sempre foi muito mais intuitiva do que técnica.

Ele diz que com os aparatos que se tem hoje qualquer pessoa chega a uma fotografia que o senso comum considera tecnicamente perfeita, sem muito esforço, que a fotografia hoje está cada vez mais entranhada no cotidiano, na vida das pessoas, mas com todos os vícios ruins, de resultado, qualidade e competição.

“A fotografia deveria ser, e é, uma experiência reveladora de percepção, uma forma de pensar a vida, que, por sua vez, é um lugar de experimentação. É preciso sair dessa formação humana que é totalmente desumana”, afirma. “A sociedade nos faz ver a vida de uma forma muito enquadrada”.

Desde o princípio, quando combinamos o encontro, eu sabia que nossa conversa descambaria para a metafísica. Esqueço a fotografia e pergunto, mesmo correndo o risco de parecer ridículo: o que é a vida, Miguel?

“A vida é de uma dimensão que nos é dada percebe-la, se quisermos percebe-la. Assim como a luz, no sentido físico e metafísico. Operamos com a luz com maior ou menor consciência. Mas ela está sempre lá, aqui, em todo lugar. Somos aquilo que percebemos e experimentamos do ponto de vista sensorial. A vida é passagem”.

Miguel lembra que tudo está conectado com a luz, desde a semente que a utiliza para eclodir, às estrelas, que estão a anos luz. “A luz me permite, do ponto de vista físico, pensar em escala de tempo e espaço, dimensões grandes e pequenas, ondas e distâncias difíceis de conceber. Somos seres cósmicos. E não é só do ponto de vista poético”, informa.

Lembramos a máxima que sem escuridão não há luz. E, nesse ponto, o tema da morte, que Miguel visitou em alguns trabalhos recentes.

“Vida e morte não se opõem, elas se complementam, como a luz e a escuridão. A sociedade valoriza a vida em detrimento da morte. Não só a morte física, mas o fim dos ciclos, o encerramento de algo. A morte representa um punctum de passagem de um estado para outro”, ensina.

“A vida é mais do que temos hoje. É preciso deixar de temer a morte, é preciso não ter medo de deixar as coisas. Tudo se transforma, tudo é orgânico e está conectado. As energias fluem para todos os lados”.

“Daí, não é possível desperdiçar a vida, as oportunidades, os momentos, a luz que nos é dada. Temos uma expressão japonesa para isso: mottai nai. Mottai quer dizer essência. Nai quer dizer negação. Nos lares japoneses o uso da expressão pode denotar desperdício quando uma criança despreza um simples grão de arroz no prato. Mottai Nai”, diz. “Tudo tem uma trajetória e é preciso fazer jus à existência e à essência das coisas. É um desperdício não se apropriar da essência da luz, daquilo que ela oferece como oportunidade para pensar o mundo”.

Pergunto se esse tipo de reflexão faz parte do seu dia a dia. “Inevitavelmente”, ele diz. “Isso me foi dado como uma herança, como valores ancestrais, devido a minha origem. E é algo que busco exercitar, essa relação com o mundo, através do fazer e pensar fotografia”.

 

About Light Miguel Chikaoka Capa Artigo 33 CHK_0485

2017. Província de Yamagata, Japão. Nas trilhas do Poeta Matsuo Bashô (Oku no Hosomichi).

 

 

“A experiência da luz e da escuridão através da fotografia”. Por Cassiano Viana.

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Cassiano Viana (@vianacassiano) é editor do About Light.

Veja fotobiografia de Miguel Chikaoka aqui.

Veja galeria de fotos de Miguel Chikaoka aqui.

O livro Navegante da luz, de Miguel Chikaoka (2014), está disponível aqui

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