Hercule Florence, Boris Kossoy e a invenção da fotografia no Brasil

Ali pelo capítulo XV de Macunaíma, Mario de Andrade promove o encontro imaginário do seu herói sem nenhum caráter com Hercule Florence.

“Logo adiante estava outro desconhecido fazendo um gesto tão bobo que Macunaíma parou sarapantado. Era Hercules Florence. Botara um vidro na boca duma furna mirim, tapava e destapava o vidro com uma folha de taioba. Macunaíma perguntou:

— Ara, ara ara! Mas você não me dirá o quê que está fazendo aí, siô! O desconhecido virou pra ele e com os olhos relumeando de alegria falou:

— Gardez cette date: 1927! Je viens d’inventer Ia photographie! Macunaíma deu uma grande gargalhada.

— Chi! Isso já inventaram que anos, siô! ”

Para além da referência em Mario de Andrade, se hoje o francês radicado no Brasil Hercule Florence é reconhecido como um dos inventores da fotografia é pelos esforços do fotógrafo e historiador paulista Boris Kossoy.

O processo fotográfico desenvolvido por Florence para registrar e fixar uma imagem de forma permanente foi descoberto pelo menos seis anos antes de Daguerre apresentar seu daguerreotipo para a Academia de Ciências em Paris, patentear o processo fotográfico e ser reconhecido como o inventor oficial da fotografia.

O feito, no entanto, permaneceu no anonimato por cerca de 140 anos, quando, ainda nos primeiros anos da década de 70, Kossoy teve acesso aos diários, anotações e documentos originais através de um tetraneto de Hercule Florence.

O material serviu como base para a publicação, em 1976, do livro “Hercule Florence: A descoberta isolada da fotografia no Brasil”, de Kossoy. No mesmo ano, as experiências de Florence foram fielmente repetidas no renomado Rochester Institute of Technology, em Nova York, que reconheceu a veracidade química do processo fotográfico inventado por Florence.

Leonardo da Vinci nas selvas

Nascido em Nice, Hercule Florence desembarcou no Rio de Janeiro em 1824, aos vinte anos, para passar alguns dias enquanto a fragata na qual viajava, fazia uma de suas paradas.

Decidiu ficar e pouco tempo depois ingressou na celebre expedição científica organizada pelo naturalista russo Langsdorff, que reuniu biólogos e artistas que percorreram 17 mil quilômetros no interior do Brasil, saindo de São Paulo e chegando na Amazônia. Durante quatro anos, o grupo elaborou mapas, registrou fauna, flora e linguística de algumas tribos indígenas. Florence juntou-se à expedição no papel de desenhista, junto com Rugendas e Taunay.

Terminada a expedição, em 1829, Florence passou a morar na vila paulista de São Carlos, hoje Campinas.

Segundo Kossoy, buscando uma forma de reproduzir impressos, em 1833 Florence conseguiu fixar em papel a imagem captada por uma câmara escura, por meio de sais de prata.

O mesmo processo estava sendo desenvolvido na França, por Nièpce e Daguerre, e na Inglaterra, por Fox Talbot. As tais coincidências da história.

“Ao longo das três primeiras décadas do século XIX, em diferentes lugares, diferentes pesquisadores buscavam alcançar um antigo desejo: tornar permanentes as imagens dos objetos externos formados no interior da câmera obscura”, escreve Kossoy, no capítulo intitulado As múltiplas invenções da fotografia.

Ainda de acordo com Kossoy, foi Florence que usou pela primeira vez a palavra photographie, em 1834, cinco anos antes do termo photography ser cunhado pelo astrônomo e químico inglês John Hershel.

Uma espécie de Leonardo da Vinci das selas, segundo Kossoy, além da fotografia, Florence desenvolveu um sistema de notação musical, a zoofonia, para registrar o canto dos pássaros e criou ainda um método próprio de impressão, a poligrafia e um papel moeda inimitável. Fundou também o primeiro jornal de Campinas.

Santos Dumont, que divide a paternidade da aviação com os irmãos Wright, foi mais sagaz, contornando a Torre Eiffel com o seu dirigível Nº 6 e fazendo demonstrações públicas e homologando seus voos no Aeroclube da França. Não fosse isso, provavelmente o 14 Bis seria apenas mais uma nota de rodapé, como dizem, na história das invenções.

Quando teve notícia da descoberta de Daguerre, Florence acabou frustrado: “Não disputarei descobertas a ninguém”, escreveu em uma carta, informando que abandonaria as pesquisas no campo da fotografia. “larguei mão”.

“Considerando-se a paixão que Pedro II teve pela fotografia é realmente uma pena que na época em que Florence inventou seu processo fotográfico, em 1833, o futuro imperador contasse apenas sete anos de idade…”, escreve Kossoy.

No ano passado, o Novo Museu Nacional de Mônaco organizou uma retrospectiva de Florence, que faria 214 anos em 2018 – nasceu no dia 29 de fevereiro de 1804, um ano bissexto. A mostra deverá vir ao Brasil neste ano.

 

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Cassiano Viana (@vianacassiano) é editor do About Light.

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