Pollyana Quintella escreve sobre as estátuas de André Kertész

É 1928. A foto é de André Kertész, o húngaro conhecido pelas distorções surrealistas. São duas estátuas clássicas, amparadas por volutas, olhando (talvez por anos, suponho) para o lado de fora da janela alta. Penso o que está à vista, mas nunca estive em Paris. Meu imaginário começa a oferecer um misto de referências turísticas e literárias. Penso na capital e então penso nos anos 1920, os macarons, a professora de francês, Fitzgerald, Hemingway, avental, Louvre, Último tango, pérolas, Brancusi, Bordeaux, Lacan… Mas o que estão olhando? É 1928. Há muito acontecendo nas ruas. É dia. Talvez duas da tarde.

Penso que a foto deve ter um título. Lá está ele: “Window on the Quai Voltaire “. Pronto, tenho um endereço. Vou ao Google. “Quai “: “cais, plataforma “. As estátuas estão na margem do Sena. Escrevo ao amigo que mora em Paris: Matheus, me descreva a Quai Voltaire. Talvez ele responda em algumas horas, mas me adianto no Street View. A rua está cheia de hotéis e galerias de arte. De um lado, fachadas com a mesma altura, todas em tons pastel. Do outro, barraquinhas vendem cartões-postais, livros, reproduções e pinturas ruins. Noventa anos separam esta Quai Voltaire da de Kertész. Já o Sena, objeto da visão, acumula para si alguns muitos séculos, as cinzas de Joana d’Arc, os Jogos Olímpicos, o passeio dos turistas. Logo entendo que o fascínio que me prende a essa fotografia, a que volto sempre, está em me jogar constantemente para fora dela. Estou mais interessada em percorrer a paisagem que as estátuas veem, desvendar essa parcela de segredo que está contida em toda imagem, esse por-detrás.

(Vibra o celular. Matheus responde: A Quai Voltaire é o cais na frente do D’Orsay, é uma área grande, de um bairro que foi sempre rico).

O da esquerda parece Homero, a da direita apostaria ser uma Vênus. Devem ser cópias do período helenístico, elas que existem aos montes por aí. Por sinal, há um busto de Homero bastante parecido no Louvre. É fácil ser copista clássico na França, está tudo lá disponível. Devem também ser só busto, apoiados sobre alguma mesa, ou talvez estejam em bases individuais. Vez ou outra alguém vem para tirar o pó, passar o pano na vista, e o casal segue com os olhos abertos.

Se o ato de olhar pode parecer um exercício de passividade, fruto de uma certa ideia de que é preciso parar para ver, abdicar da ação (mamãe dizia: pare de olhar e venha ajudar), ele é aqui aquilo que anima o par de esculturas, revelando essa espécie de vida secreta das coisas, objetos que nos observam quietos, voyeurs de uma mesma paisagem. Por exemplo: penso nas gárgulas góticas, os monstrengos na beira das catedrais que também foram feitos para enxergar. Nada passa incólume à gárgula que tudo vê, tudo protege, tudo guarda. Ela assusta e é temida porque vê — e mesmo por isso parece viva. A diferença é que aqui as estátuas veem do lado de dentro, sob o ponto de vista da intimidade, reafirmando o lugar da janela como camarote dos eventos públicos, a excelência do dispositivo de observação confortável ou de privação angustiante (lembro também das senhoras oitocentistas, fazendo da janela a experiência possível da rua). É também assim com as bonecas, de noite ninguém acha mal virá-las para a parede. Aqueles olhos não piscam, mas talvez enxerguem. Ver requer alguma presença, alguma vitalidade.

O casal medita sobre o Sena durante anos, talvez a paciência os faça notar até os pequenos movimentos de um rio domesticado. O Sena de Monet, Pissarro, Vuillard, é também pintura para o olhar imóvel. No entanto, não imaginaram que lá embaixo estava Kertész os imobilizando pela segunda vez, do mármore para a objetiva.

 

A Window on the Quai Voltaire, Paris 1928.jpg

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Pollyana Quintella (@pollyana.quintella) é curadora e crítica de arte.

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