Sergio Werner escreve sobre Shoji Ueda

Encontrei Shōji Ueda por acaso. Eu tenho esse hábito de visitar exposições sem me informar antes, sem antecipar. Às vezes, como foi o caso de Shōji Ueda, é uma visita à Maison Européenne de la Photographie (MEP). Lá, são duas, três exposições ao mesmo tempo: uma exposição maior, de alguém muito conhecido – normalmente nos últimos andares –, acompanhada por uma ou duas exposições menores. Quando encontrei Shōji Ueda, a exposição maior era de algum grande fotografo de guerra, ou de fotografia de denuncia social, algo assim, sério, pesado, não lembro. Mas lembro perfeitamente de meu encontro com Shōji Ueda.

O contexto não é indiferente ao meu encontro com Shōji Ueda. Sua exposição estava no segundo andar, espremida entre as duas sérias exposições do último andar e do térreo. O cartaz, discreto, falava de um surrealista japonês. Meu método de despreparação, de encontro aleatório e direto, convinha perfeitamente a um surrealista, pensei. E entrei.

Foram os espaços negativos das fotografias que atraíram o olhar, em um primeiro momento. Tanto o céu quanto as areias, esvaziam o quadro. As imagens ficam destacadas, planas, sem profundidade, um pouco como hieróglifos, um tanto quanto as pinturas tradicionais chinesas, onde o figurativo enquadra, limita, dá forma ao vazio. As composições lineares – com elementos enfileirados uns aos lados dos outros –, simplificam ainda mais a imagem e remetem a uma visão quase sequencial.

Mas um olhar tão formal é finalmente pobre. Depois de alguns minutos sentado, com o olhar percorrendo de imagem em imagem, me ocorreu que fazer essas fotos deve ter sido muito divertido. Crianças. Piqueniques. Um dia ao sol. O deserto. O tempo claro sem nuvens. Poses. Em uma foto, uma moça brinca com crianças. Leve. Efêmero. As fotos carregam sorrisos. Shōji Ueda amava o que fazia. Entre as exposições torturadas do térreo e do último andar, Shōji Ueda vivia, respirava uma vida que flui e que não se leva tão à sério. Seu surrealismo não traz mistérios ou torturas. Shōji Ueda é um surrealista de sonhos bons.

Suspeito também que Shōji Ueda seja mais humano que japonês. Ele escapa às projeções que nós, ocidentais, podemos fazer de um certo japonismo. Não há zen folclórico, não há haiku, não há cerimônia do chá. Nas fotos, o que vejo é a leveza confortável dos encontros com bons amigos, ou com a família. As dunas neutras destacam algo que é comum à nossa natureza gregária humana.

Ele era pouco documentado no ocidente, logo após a exposição o que mais encontrei foram livros em japonês. Não que importe para apreciar as fotografias. Recentemente, foram publicados outros livros, em inglês. Não que importe também em apreciar as fotografias. Na verdade, nunca precisei olhar mais de uma vez para as fotografias de Shōji Ueda. Procuro na internet de quando em quando, quando dá saudade. Ficaram na memória como ficam a lembrança de certos piqueniques, ou certos encontros não documentados com bons amigos.

Shōji Ueda tem várias séries de formalismos diferentes, a maioria nas dunas de Tottori. Sua bibliografia cobre pelo menos trinta livros. Ele foi professor universitário por vinte anos. Ele é, sem dúvida, muito maior que essas poucas fotografias que me marcaram. Mas, por alguma razão própria a mim e própria a ele, foi essa série que me marcou.

 

Shoji Ueda 1Shoji Ueda 2Shoji Ueda 3Shoji Ueda 4Shoji Ueda3

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Sergio Werner (@sergio_werner) nasceu em São Paulo, vive em Paris. Publica o blog aji|game of go (http://aji2000.free.fr/).

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