Pérola Mathias escreve sobre Lee Perry

Quando olho a foto que tirei da mão de Lee Scratch Perry segurando o microfone e reparo no formato de suas unhas longas e anéis de pedra ou prata iluminando todos os dedos, sou capaz de percorrer uma memória panorâmica do show que o músico apresentou em 2015 em São Paulo junto com Mad Professor. Uma das coisas marcantes no show foi o brilho que emanava de cada movimento de Perry, vestido com um zilhão de adereços que refletiam as luzes do palco: além dos anéis, as pulseiras em cada braço, os inúmeros colares sobrepostos, o boné também coberto de pedras e brilho, o microfone envolto com um papel estampado com o homem aranha, em que o azul contrastava diretamente com sua barba e cabelo vermelhos, no meio do equilíbrio entre o mic, o isqueiro e o beck. Tudo parecia dançar no ritmo do Disco Devil.

Das fotos de shows que já fiz, as deste dia estão entre as minhas preferidas. Levei a câmera ao show por hobby, porque iria ver duas lendas vivas da música e porque estava começando a fotografar. Precisava treinar. Cheguei de viagem em São Paulo já na parte da tarde e fui direto para o Estúdio, em Pinheiros. Acompanhei o lugar encher e aproveitei para ficar bem na frente do palco. Eu já tinha ido ao Estúdio um dia, mas não me lembrava como era o palco do lugar. Para minha sorte, era um palco pequeno e baixo. Para meu delírio, estava bem iluminado e consegui tirar umas fotos bem de perto, usando minhas lentes fixas, uma 50mm e uma 100mm (na minha câmera croppada, diga-se).

E foi justamente neste show que a importância do detalhe na fotografia se revelou para mim. Porque é ao rever os detalhes que foquei nas fotos que a memória da experiência que vivi naquele dia se reativa. Da mão emana a performance exibida por Perry, que é um ser incansável: eu não aguentei até o fim da apresentação e fui embora com ele ainda no palco, o que deu a sensação de que este dia não foi real, mas uma viagem da minha cabeça. A partir do que vejo hoje na foto, eu recrio, para mim, o canto, os gestos, a dança – os pulinhos jogando as pernas para frente e abaixando os quadris no ritmo do dub. O soul fire man parava e olhava fixamente a plateia, acendia o isqueiro, clamava por fogo e nos convidava para aquele ritual de celebração.

Eu poderia ter passado o show, caso não estivesse fotografando, dançando loucamente – o que eu não deixei de fazer. Mas a câmera me deu uma outra postura, uma outra experiência, porque ela, em geral, media o que vejo e desloca, de alguma maneira, também o meu ouvido, pois acabo ouvindo através do que vejo. E no momento em que me proponho a fotografar um show, não o assisto com os olhos do público, nem com os olhos dos outros músicos que estão no palco. A câmera me direciona o olhar de modo consciente, seja me levando para os detalhes ou para o todo. Quando vou a um show como fotógrafa, exclusivamente para isso (mas nunca impedida de curtir o som, claro), esse lugar intermediário fica ainda mais claro, porque consigo pegar não só o que se passa no palco, mas como a energia entre público e artista é trocada.

É como se eu ficasse suspensa vendo este trânsito de vibes.

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/Disco Devil: Pérola Mathias escreve sobre Lee Scratch Perry

Pérola Mathias(@poroaberto) é doutoranda em Sociologia pela UFRJ e escreve no blog poroaberto.tumblr.com.

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