Francisco Ebeling Barros escreve sobre Thomas Struth

Há alguns anos, cientistas chegaram à conclusão de que as mudanças causadas pelos humanos no planeta seriam suficientes para caracterizar uma nova era geológica. Desde então, essa conclusão se transplantou para o campo das Ciências Sociais, para se transformar em um debate altamente interessante.

No cerne desse debate encontra-se a tese de que os humanos não podem mais ser separados da natureza, ainda que só de forma teórica. Na realidade, a ideia de que os humanos são criadores – e não apenas criaturas – não é nova, mas com o Antropoceno essa tese ganhou um novo gás.

Com as pesquisas genéticas, a microeletrônica avançada (por ex.: os computadores quânticos), a nanotecnologia, dentre outras tecnologias, as transformações que os seres humanos têm infligido às espécies chegaram a um novo patamar. Soma-se a isso o aquecimento global, que é o subproduto do desenvolvimento econômico e social acelerado que nos proporcionou o capitalismo.

Os seres humanos transformaram de forma tão intensa o planeta, e agora talvez terão que pagar a conta. Neste sentido, o debate sobre o Antropoceno nas Ciências Sociais relaciona, também, a questão da culpa e da responsabilidade com a capacidade de moldar o mundo. Somos então chamados a repensar os nossos modos de vida para que o Antropoceno não seja somente destruição, mas também reconstrução.

O Antropoceno tem também a sua expressão nas artes plásticas, na literatura, na música, e também na fotografia. Gosto particularmente da artista plástica americana Mary Iverson, que conjuga em sua obra tragédias naturais com a infraestrutura avançada que criamos. Também sou um grande fã dos livros de David Mitchell, que relaciona como ninguém as muitas histórias do mundo com a destruição ambiental. Na música, um exemplo muito interessante é o último álbum do Dream Theater, The Astonishing, uma ópera rock situada em um futuro distópico.

Na fotografia, temos Thomas Struth*. Descobri a fotografia de Thomas Struth por um acaso. Estava olhando a programação do Museu Martin Gropius Bau (visite esse museu se vier a Berlim, aliás!), quando me interessei pelo conceito que estava no título de sua exposição, Nature and Politics. Após algum tempo – creio que a exposição já estava se encaminhando para as suas últimas semanas – decidi desembolsar os caros cerca de 10 euros pedidos pelos organizadores e ir lá.

Em Nature and Politics, Thomas Struth retrata facilidades industriais avançadas, centros de pesquisa em tecnologia de ponta, além de cenários urbanos em países como a Coréia do Sul, que é onde tudo isso está sendo produzido. Muitas das fotografias têm relação com o campo da energia. Assim, Struth retrata um Blow Out Preventer – equipamento utilizado pela indústria do petróleo -, o instituto de pesquisa de fissão nuclear de Greifswald, Alemanha, além de uma piscina de ondas cuja facilidade, assim creio, eram pesquisas no campo da energia. Mas, também, algumas fotografias que retratam apenas cabos – os chamados bastidores de nossa civilização industrial avançada.

O fotógrafo alemão quer observar e questionar a forma como naturalizamos esses avançadíssimos equipamentos. A natureza que criamos – e esse é um dos temas chave da discussão intelectual sobre o Antropoceno – é mais frágil e contingente que gostaríamos de admitir, apesar dos evidentes sucessos que temos colhido. E além de tudo, ela é um projeto político.

Foram bilhões de dólares despejados por Estados na pesquisa básica que nos trouxe até esse eldorado tecnológico, em projetos cujo objetivo final era, ou combater a ameaça comunista, ou manter em cheque os neocons do establishment americano. Mas existe, ainda, um desejo político deliberado de mascarar a complexidade e a fragilidade dessas instalações para que as democracias liberais e o capitalismo desenfreado sejam efetivamente governáveis.

A fotografia de Thomas Struth me fez refletir bastante e, de certa forma, incorporou-se ao que penso sobre fotografia. Não sou um fotógrafo profissional – sou um “amateurista” –, mas creio que tenho evoluído e talvez eu tenha um certo talento.

Thomas Struth – e é evidente que não só ele – me fez observar as infraestruturas urbanas, que ficam um tanto quanto escondidas em vielas e bairros industriais. Como ele, não terei acesso fácil a instalações avançadas de pesquisa ou grandes estaleiros, mas estou satisfeito com algumas das fotos que tirei do lado de fora dessas instalações. Consegui captar alguns detalhes interessantes, como pequenos vazamentos de areia em um muro e de água em uma usina termoelétrica. Em meu trabalho, busco relacionar o combo Nature and Politics também em fotografias de grafites sendo consumidos pela natureza, de velhos equipamentos urbanos destroçados por uma certa juventude, ou de árvores que foram pichadas ou adornadas com grafites. Nessas intervenções urbanas na natureza, ou da natureza na orbi, há com certeza uma mensagem política a se observar.

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/ Francisco Ebeling Barros, Do lado de fora: sobre Thomas Struth

 

Francisco Ebeling Barros (@ebelingbarros) é economista e Doutorando em Economia na Universidade de Oldenburg, Alemanha. Nas horas vagas, gosta de fotografar.
* Thomas Struth: http://www.thomasstruth32.com/smallsize/index.html

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