Cassiano Viana escreve sobre Eustáquio Neves

O filósofo francês Paul Ricoeur costumava afirmar que toda memória é uma experiência de reconhecimento e recriação. Todo lembrar é um exercício de ressignificação das coisas e de si mesmo, uma defesa contra o esquecimento. “Não há nada melhor que a memória para significar que algo aconteceu, ocorreu, se passou antes que declarássemos nos lembrar dela”, dizia.

A memória é, junto com o caráter autobiográfico, sem dúvida alguma, uma das principais linhas condutoras da obra de Eustáquio Neves, quem, por sua vez, é um dos grandes nomes da fotografia brasileira.

Da primeira vez que conversamos, eu escrevia um artigo sobre A Boa Aparência – série que confrontava textos e anúncios em periódicos antigos e que denunciava a fuga de escravos com os classificados e ofertas de emprego dos dias de hoje, através da manipulação de negativos fotográficos e sobreposição de imagens, com isso, abrindo os nossos olhos para as muitas formas de escravidão contemporânea. Uma das frases que ficou ampliada em mim foi: “Estou, de certa forma, sempre falando de mim mesmo, do que acontece à minha volta e da herança que me acompanha”.

Uma imagem sempre lhe vem à cabeça, uma que Eustáquio acredita ser a mais remota: “Estou em Juatuba, interior de Minas Gerais, onde nasci. Tenho um ano e estou sentado dentro de um buraco de terra, brincando”.

Da primeira fotografia ele já não lembra, mas recorda que, ao contrário da maioria dos fotógrafos que tem como primeiro trabalho algo revelado em preto e branco, revelou um cromo.

Pergunto por que a memória é tão recorrente em sua obra.

“Porque cada instante que vivemos vira imediatamente passado, e lembrar o passado, no meu caso, é algo que me faz seguir em frente, sem perder de vista de onde venho”, ele responde.

Eustáquio conta que, no início da carreira como fotógrafo, Cartier–Bresson foi uma grande inspiração, ainda que a escola europeia de fotografia não lhe interessasse tanto e buscasse uma fotografia completamente diferente.

“Na verdade, uma referência importante do meu trabalho foi o Wim Wenders, pois no início eu fotografava imaginando estar fazendo cinema”, admite. No entanto, marcante mesmo, foi a descoberta da memória reconstruída e do tempo suspenso na obra de obra de Arthur Bispo do Rosário.

“A obra de Arthur Bispo do Rosário me libertou das amarras convencionais da fotografia e da arte”, assegura o fotografo, para quem o experimentalismo e o acaso exercem função expressiva fundamental.

Mas não é por acaso que Eustáquio more hoje no número 88 da rua Arthur Bispo do Rosário, no bairro da Vila Operária, em Diamantina, Minas Gerais. “A rua estava sendo criada. Minha casa foi a primeira a ser construída. Levei um dossiê sobre Arthur Bispo do Rosário até a prefeitura e pedi o nome para rua”, conta.

Para além da fotografia, nos últimos tempos, Eustáquio tem publicado, nas redes sociais, fotos e vídeos onde aparece tocando ora violão ora guitarra.

“Fiz dois anos de violão clássico. Interrompi o estudo bruscamente depois que comecei a me interessar por fotografia. Há tempos que não toco. O violão ficou encostado por trinta anos. Voltei a me interessar pela música e hoje consigo tocar algumas frases soltas. Estou bem enferrujado, não acho que sou bom nisso”, ele diz.

Eu afirmo que sim, ele toca muito bem. “Generosidade sua”, ele diz.

Lembro a influência de Wim Wenders e pergunto se ele gosta das trilhas que o guitarrista e compositor norte-americano Ry Cooder fez para os filmes do cineasta alemão.

“Gosto muito. Acho lindo o que ele fez com os cubanos, em Buena Vista Social Club”, diz. “Eu estava em Londres na época do lançamento do filme. Aí juntou saudades de casa, da minha mulher, que esperava o nosso primeiro filho. Chorei o filme todo”, lembra.

Aos 62 anos de idade, Eustáquio ultimamente vem reunindo fotos casuais, fragmentos de negativos, textos manuscritos, desenhos, arquivos de memórias e objetos, para um novo fotolivro. Como um mineiro que garimpa a própria história. “Será um fotolivro sobre mim mesmo, baseado nos arquivos e na informação oral vinda da minha família e de pessoas próximas. Algo sobre o tempo e como eu lido com ele”, explica.

Ao mesmo tempo, trabalha em uma série nova, uma espécie de diário em vídeo que mostra crianças que ainda se divertem com brincadeiras tradicionais. “Com isso, eu resgato um pouco das minhas memórias de infância, quando eu construía meus próprios brinquedos”, conta o fotógrafo que acumula prêmios importantes como o Marc Ferrez de Fotografia, da Funarte e cuja obra integra coleções como Itaú Cultural, MAM-SP e Pirelli/Masp, entre outras.

“Dentro da precariedade de uma família pobre, tive uma infância muito rica”, diz. “E minhas lembranças são muitas”, diz.

Veja a fotobiografia de Eustáquio Neves aqui.

 

/Cassiano Viana, Eustáquio Neves: A memória é a herança que me acompanha

Cassiano Viana (@vianacassiano) é editor da About Light e da revista Minotauro.

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