Cassiano Viana escreve a história de uma câmera

Kazuo Tashima tinha 28 anos quando precisou representar a companhia de importação e exportação do pai em uma missão comercial para promover a seda japonesa em Paris.

Em Paris, Kazuo visitou uma fábrica de componentes ópticos e decidiu levar a tecnologia para o Japão. O pai se opôs à ideia. Obstinado, Kazuo pediu um empréstimo e abriu seu próprio negócio, a Nichidoku Shashinki Shōten, uma pequena fábrica de câmeras fotográficas desenvolvidas junto a dois engenheiros alemães que viviam no Japão – Billy Neumann e Willy Heilemann, que alguns anos depois fundariam a Neumann & Heilemann.

O primeiro equipamento produzido pela companhia de Kazuo foi a Nifcalette, uma 4×6.5, fabricada com lentes e outros componentes importados da Alemanha – apenas o corpo da câmera era fabricado no Japão.

Três meses depois do início da produção, a fabricação da Nifcalette atingia 300 unidades por mês e apesar das dificuldades – o Japão havia sido afetado negativamente pela Crise de 1929 – Kazuo manteve o negócio, desenvolvendo, inclusive, novos modelos de câmeras.

Kazuo considerava a companhia “a small boat which set sail right into the storm”.

E foi bem dentro da tempestade que Kazuo lançou, em 1933, a primeira câmera com a marca Minolta – o nome, um acróstico para Mechanism, Instruments, Optics, and Lenses by Tashima.

Passada a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, em 1954, Kazuo decidiu que enviaria aos EUA uma missão comercial que tinha por objetivo promover a indústria fotográfica japonesa. O pequeno barco de Kazuo havia atravessado a tormenta apontando suas velas para a diversificação de produtos, fabricando além das câmeras, relógios digitais, calculadoras de bolso, copiadoras e filmadoras VHS.

A estratégia comercial, nos EUA, se mostrou a mais acertada: desenvolver produtos ópticos para o programa especial americano. Com isso, a tecnologia Minolta foi utilizada não só na primeira volta da Apollo 8 em torno da lua, mas na missão que resultou no primeiro pouso do homem no satélite.

Um pequeno passo para a humanidade, um feito enorme para a indústria fotográfica japonesa. Sobretudo para a companhia de Kazuo.

Depois de lançar uma bem-sucedida linha de câmeras, a Minolta iniciou as vendas do modelo SR-T 101, uma das primeiras com medição de luz TTL (through-the-lens). Um avanço enorme, em termos de equipamento e que tornou a SR-T 101 uma das câmeras mais populares, entre os grandes fotógrafos da época. Entre os que utilizaram a Minolta SR-T 101 estão William Eugene Smith e Annie Leibovitz.

Eu não sei em que ano a Minolta SR-T 101 de número 2384004 (número de série gravado no chassi da câmera), fabricada no início dos anos 70, uma câmera sólida, de corpo pesado, 990 gramas de metal cromado, lente original 50mm da Rokkor, chegou ao Brasil, e mais precisamente a São Luís do Maranhão, onde nasci e morei até meus 29 anos.

Na época, as principais portas de entrada de importados no país eram o Paraguai e a Zona Franca de Manaus.

Quando comprei a câmera, no final dos anos 90, ela já havia passado pelas mãos de pelo menos três grandes amigos e excelentes fotógrafos. Geraldo Iensen lembra que comprou a câmera com Fausto, um lambe-lambe que morava em São Luís, na década de 80. Geraldo utilizou o equipamento até meados de 1995, quando vendeu a SRT para Eduardo Julio que vendeu a câmera para Rafael Bavaresco, em 1998, depois de enviar o equipamento para consertar em São Paulo.

Quando Rafael decidiu me passar a câmera – insistindo que eu estava fazendo um péssimo negócio –, o fotômetro já não funcionava e um problema na cortina causava um vazamento de luz que imprimia, no negativo, algo realmente particular, uma borda irregular, escura, que eu particularmente adorava: eu sabia – ainda sei – reconhecer uma fotografia tirada com a minha câmera.

Hoje penso que foi um tanto quanto libertador dar os primeiros passos na fotografia em um equipamento sem fotômetro. Aprendi a olhar melhor para a luz e identificar a abertura certa, a velocidade ideal. Ainda hoje, quando utilizo uma câmera de condições perfeitas, uso suas indicações como uma referência que muito raramente sigo.

Com a minha Minolta fotografei primeiro minha família, amigos e ocasiões que percebia como importantes, um diário pessoal em imagens. Pensando agora, nada que não faça hoje, em minha vida de poucos temas – e no entanto, todos eles por demais importantes: em São Luís, nos anos 90, não raro eu me encontrava sozinho, voluntariamente, percorrendo a cidade – o centro da cidade, principalmente –, subindo vários lances de escada para fotografar um telhado, ou as torres das igrejas, ou o verde da vegetação nativa que ainda se embrenhava pelas casas.

A Minolta SR-T 101 de número 2384004 ainda está comigo. Em todas as mudanças, é um dos primeiros objetos que coloco na mochila – nunca em uma caixa que pode ser perdida no meio do caminho. Uma grande parte da minha vida está ali. Seguro ela nas mãos e penso em pessoas e lugares que guardei através das lentes. Olho para ela, que está sempre bem à vista, na segunda prateleira da estante, junto com meus livros preferidos, e me sinto em casa.

/Cassiano Viana, A história de uma câmera

p/Audrey

Cassiano Viana (@vianacassiano) é editor da About Light e da revista Minotauro.

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